Jornal "A TARDE", Salvador da Bahía, Brasil, 21 Dezembro de 2003

"Lula é o grande traidor do povo"

Heloisa Helena é, atualmente, um dos nomes mais importantes da política brasileira. Sua coerência, luta, coragem e honestidade orgulham os brasileiros que desejam uma nação justa. Ela é, particularmente, um orgulho para as mulheres. Mãe de dois filhos, a senadora pelo estado de Alagoas foi expulsa domingo passado do Partido dos Trabalhadores, do qual foi uma das fundadoras. Em entrevista exclusiva concedida ao jornalista Marconi de Souza, na última sexta-feira, Heloisa Helena foi implacável.

A senhora se sente como uma mulher que se dedicou a vida inteira ao marido e depois foi traída, ou como uma filha que o pai expulsou de casa por não concordar com a conduta dela?
Ai Deus do céu (Heloísa leva mais de um minuto rindo). Eu não tenho experiência de pai, porque ele morreu quando eu tinhã três meses. A situação seria a de alguém que durante toda a vida aprendeu determinada lição e de repente alguém lhe manda rasgar a cartilha porque a lição ensinada pelo pai e aprendida pelo filho não serve mais. Essa é uma pergunta difícil de responder (risos). Mas já que você está falando de amor, tem um sermão muito interessante do mandato do padre António Vieira, em que ele diz que o único amor que não tem fim e não tem remédio é o amor de Deus por nós. Os outros têm fim. Ele diz que tem quatro remédios para acabar com o amor: o tempo, a ausência, a ingratidão e o melhoramento do objeto.

Como são esses remédios do padre António Vieira que acabam com o amor?
Ele dizia que se o tempo é capaz de atrever-se até contra os templos de mármore, o bronze e o ferro, imagina o que pode fazer com os corações de cera. O outro remédio é a ausência, que aparta, e quando aparta esfria, e quando esfria deixa-se de amar. O terceiro é a ingratidão. Esta é como os remédios - os melhores são os mais amargos -, e tal qual o melhor remédio, é o mais amargo, tem muita eficiência. O melhoramento do objeto, o quarto remédio do Padre, é o seguinte: para esquecer um amor, nada melhor do que arranjar um outro amor, que amor com amor se paga, e amor com outro amor se apaga.

E qual foi o remédio que lhe vitimou...?
Eu tenho repetido para mim todos os dias: É melhor o coração partido do que a alma vendida. Você ser expulsa de un partido que você dedicou os melhores anos da sua vida para construir, em momentos em que os obstáculos eram tão grandes, que a gente tinha que engolir os nossos próprios medos, enfrentando crime organizado, as oligarquias, sendo marcada no corpo, na alma, na dignidade, como militante de esquerda, na condição de mulher, pela violência no estado de Alagoas, não é uma coisa qualquer. E ao mesmo tempo, quando nós identificamos muitos delinqüentes da política brasileira sendo acarinhados, não apenas na partilha do espaço público, mas pelo silêncio da omissão e da cumplicidade, é uma sucessão muito difícil. É muita ingratidão.

O senador António Carlos Magalhães é um desses delinqüentes acarinhados pela cúpula do PT, como foi no caso dos grampos telefônicos?
Eu não tenho dúvida que houve uma clara proteção ao senador na questão do Conselho de Ética, porque a atuação dos senadores do PT nesse caso mostram claramente isso. Aliás, a entrevista que dei para A TARDE na época sobre o caso dos grampos, e que critiquei a postura dos senadores petistas, foi a responsável pelo total fechamento da questão em torno da minha expulsão do partijdo. Depois daquela entrevista, senti que tudo se fechou, ficou sacramentada a expulsão.

A senhora acha que o governo do PT deveria seguir as promessas de campanha ou as diretrizes do partido?
O que eles estão fazendo não esteve na promessa de campanha.Olha, alguns setores mais sofisticados, alguns setores que são capazes de fazer uma análise mais sofisticada, eles até podem dizer que já havia uma flexibilidade programática no partido, tanto com relação a uma opção de aliança com partidos liberais, como, por exemplo, no anúncio da chamada Carta ao Povo Brasileiro, que muitos petistas caracterizaram como carta aos banqueiros. De uma forma geral, pode até ser que as belas películas de um grande profissional de mídia, como Duda Mendonça, possa também ter sensibilizado os corações brasileiros. Mas durante a campanha, em nenhum momento, o partido ou o próprio candidato sinalizou para a opinião pública que iria dar continuidade a essa política macroeconômica do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Lula foi eleito com a promessa de mudança ...
Exatamente. O povo votou por mudanças estruturais, profundas, porque em nenhum momento, no programa eleitoral, nem nos comícios ou documentos escritos, foi comunicado ao povo brasileiro que iria haver uma clara continuidade da política de Fernando Henrique Cardoso. Aliás, muito pior, o que há hoje é um aprofundamento da política de Fernando Henrique, uma conclusão que o governo FHC não foi capaz de fazer. É extremamente grave a situação. Com todo respeito aos transformistas, mas é mais ou menos isso o que aconteceu com o governo do PT: uma mudança da condição de contrário ao modelo neoliberal para uma ferramenta da propaganda triunfalista do neoliberalismo.

Tudo isso está documentado.
Quem analisa os memorandos técnicos, as cartas compromissos, as cartas de ajuste com o Fundo Monetário Internacional e com as demais instituições de financiamento multilateral, vê com a mais absoluta clareza que o governo do PT se tomou numa ferramenta da propaganda triunfalista do neoliberalismo. Não é a toa que os quatro pontos acordados com o FMI são a reforma da Previdência, a lei de falências, a privatização dos bancos federalizados e a autonomia do Banco Central. Só falta a autonomia do Banco Central, mas o ministro Pallocci, na própria reunião do diretório nacional, já disse que vai viabilizar a autonomia, custe o que custar.

O que é que a senhora aprova e reprova no governo Lula em 2003?
Pense em algo aí. Me ajude aí, seja imparcial (risos).

Não sou repórter que tem partido, busco a honestidade.
Então é por isso que estou dizendo que, para que eu preze pela honestidade intelectual que sempre conduziu minhas convicções programáticas, minhas convicções ideológicas, minha visão de mundo, eu não posso identificar o que poderia ser aprovado no governo. Muitos analisam que a política externa do governo é um avanço. Pra mim o maior avanço na política externa seria se o governo brasileiro fosse capaz de não se ajoelhar covardemente perante o FMI. Essa sim seria a mais bela demonstração de altivez, de soberania nacional, e que poderia inclusive criar novos e melhores caminhos para a América Latina, para a África, para a Ásia. Não adianta chegar no mundo árabe e fazer uma critica ao governo norte-americano e se tornar absolutamente refém da agência do tesouro americano, que é o FMI.

A senhora se arrependeu de não ter deixado o PT para se filiar a outro partido e ser candidata à prefeitura de Maceió? Ou preferiu mesmo ser atirada na fogueira...
Eu me lembro que A TARDE publicou um belo texto sobre isso. Entre o poste, como traidor, e a fogueira, escolhi a fogueira. Tem uma música da Rita Lee que diz: "Só quem esteve na fogueira sabe o que é carvão". Não me arrependi. Se eu tivesse que fazer uma opção eleitoralista, eu teria feito em setembro, até em função do meu velho sonho de administrar a prefeitura de Maceió. Tive convites do PDT, do PPS e do PSTU. Fico sensibilizada com os convites deles, mas minha decisão é estar junto com aqueles que iniciam um movimento para unificação da esquerda socialista, na forma de um fórum de debates, de um pólo de resistência, que poderá culminar ou não com a criação de um novo partido. Até porque um novo partido não se faz por decreto nem pela vontade verbalizada de alguns poucos. Estou muito disponível para essa travessia no deserto.

Mas deixou muitos amigos no PT.
Tenho muitos queridos companheiros que decidiram ficar no PT, como Walter Pinheiro (deputado baiano), que é um grande companheiro. Tenho respeito por alguns que fizeram essa opção. Fico profundamente sensibilizada também com aqueles que estão se desfiliando do partido, para que a gente possa criar esse pólo de resistência socialista no Brasil.

Comenta-se nos bastidores de Brasília que há muita inveja de deputados e senadores petistas com a projeção que seu nome ganhou no cenário nacional, e que isso foi determinante para sua expulsão.
Algumas pessoas falam isso, mas quem consegue entender a complexa subjetividade humana. Como eu sou sertaneja, quando era menina ficava na frente do terreiro de casa à noite, não tinha luz, deitada na esteira contemplando o céu cheio de estrelas. Então, eu sempre gostei do céu cheio de muitas estrelas. Se as pessoas precisam apagar o brilho das outras para tentar realçar o seu, eu sugiro muito mais uma consulta psiquiátrica do que a militância política. Algumas pessoas comentam isso, mas eu fico receosa de fazer uma análise como essa, para evitar contaminá-la com a dor profunda que eu tenho sentido nesse processo todo.

O José Dirceu e o José Genoíno são os grandes traidores do partido?
Eu nunca concordei, sempre repudiei com muita veemência uma análise de setores importantes da elite, que sempre tentaram descaracterizar Lula, a ele atribuindo, digamos, fraqueza política. Eu nunca compartilhei com aqueles que achavam que ele não teria condições de gerenciar o País, que seria fraco a ponto de ser manipulado pelos outros. E essa análise minha serve para o bem e para o mal. Então, eu não tenho dúvida que ele é a maior liderança da América Latina, é extremamente competente tecnicamente, qualificado, é ele quem conduz o País, e igualmente conduz as decisões partidárias.

Então Lula é o grande traidor do povo.
Sim. O que aconteceu é que ele mudou de lado. Entendeu? A cúpula palaciana rompeu unilateralmente com as bandeiras históricas do partido. Descumpriu unilateralmente as resoluções do último encontro nacional e promoveu uma reacionária coexistência pacífica entre o que há de mais podre na política nacional, montando um verdadeiro balcão de negócios sujos no Congresso Nacional, para compor artificialmente maiorias. Sempre tive dificuldade de fazer política nominando, até porque o esquecimento poderia proteger algumas. Sempre trato, portanto, da cúpula palaciana, mas eu nunca compartilhei com essa forma de salvaguardar o presidente. Isso aí eu não tenho dúvida, que, para o bem e para o mal, ele é o responsável.

A senhora acredita ainda numa sociedade igualitária? Qual é o seu ideal de sociedade?
Eu não abro mão da minha visão socialista de mundo. Se eu conseguirei vivenciar uma sociedade assim, eu não sei, não tenho fórmula mágica, nem bola de cristal. Mas continuo acreditando, luto com todas as minhas forças, para viabilizar isso. Quero ter a certeza que da minha passagem por essa vida eu dei o máximo da minha capacidade de luta e de trabalho para conseguir isso. Até porque tem uma máxima de Trotsky, que diz que nadar contra a correnteza é uma das experiências mais difíceis. Eu brinco dizendo que a minha modalidade preferencial de nado é o de nadar contra a correnteza. Mas há aqueles que preferem o silêncio cúmplice, o banquete farto do poder, o cinismo, a dissimulação, os que se lambuzam no banquete farto.

A senhora sonha com a presidência da República?
Ai meu Deus (risos). Filho de pobre sonha pouco com o futuro. Até me perguntam se quando eu era criança sonhava com meu futuro, aí passei a refletir sobre isso, e lembro que nunca sonhei. Eu só quero é ter a certeza, a consciência tranqüila que fiz o bom combate, como diz o apóstolo São Paulo. Que não vendi a alma, não vendi minha consciência.