Lula e o Ônus da Dívida
O FMI começa a pensar que não pode aplicar ao gigante (Brasil), a receita que arruinou a Argentina.
Novo alerta sobre o futuro de toda a América Latina.

AMÉRICA LATINA sangra a cada ano, ao desvencilhar-se da imensa soma de US$300 bilhões para pagar aos seus credores os juros de uma dívida, cujo total, na origem era, exatamente, essa mesma quantia: US$300 bilhões, que, como conseqüência, já foi paga quatro vezes pela via dos juros.

De Nova York, Escreve o diplomata Peruano
CARLOS ALZAMORA*

O Fundo Monetário Internacional, alarmado com esse Frankenstein sangrador criado pela sua miopia política, social e sua torpeza financeira, continua emprestando para retardar o colapso, na suposição irracional de que um país - como o Brasil, por exemplo - que não pode pagar uma dívida de US$250 bilhões, sim poderá pagar uma de US$280 bilhões se o Fundo o "ajuda" com mais 30 bilhões.

Argentina já se precipitou por esse despenhadeiro, abrumada pela imensa dívida à que foi conduzida pelas "ajudas" concedidas pelo Fundo para financiar a política equivocada dos campeões neoliberais Menem e Cavallo. O Brasil esteve próximo disso e só se salvou, no último momento, graças a essa "ajuda" de 30 bilhões de dólares que o Secretario do Tesouro dos Estados Unidos ordenou ao Fundo emprestar em regime de urgência ao Brasil, porque, às vésperas das cruciais eleições americanas de novembro, os republicanos não podiam dar-se ao luxo da oitava economia do mundo entrar em colapso no Hemisfério, muito menos aparecer como responsáveis da vitória esquerdista de Lula.

O DESPENHADEIRO DA DÍVIDA
Porém, o Fundo, encarando pela primeira vez, o perigo que representa a realidade da dívida e também a resistência dos fundos públicos continuarem sendo utilizados para salvar os credores privados que se arriscam na procura do lucro; tenta agora um paliativo institucional e estável para a crise que, pelo atual caminho, sabe ser inevitável na América Latina, e tem proposto à sua Diretoria conceder aos Países, na beira de cessar os pagamentos, dois tipos de saídas:
A primeira consiste em modificar os contratos dos bônus da dívida de forma que um só credor não possa, antecipadamente, bloquear o acordo dos demais credores com o país devedor, o que, agora seria aprovado pela maioria. A segunda, é aplicar aos países devedores em crise, o mesmo tratamento que as empresas privadas dos Estados Unidos, desfrutam ao declarar-se na falência sob o denominado Capítulo XI. Este dispositivo autoriza às empresas, a suspender o pagamento das dívidas, protegendo-as de ações judiciais e embargos e organizando um processo ordenado para a negociação e o acordo com seus credores, de forma que a empresa possa continuar suas atividades e produzir o lucro necessário para atender o acordo de pagamentos feito com seus credores.

Enquanto prepara essas medidas preventivas, para a contenção do dano - que não estariam prontas em tempo hábil nem seriam suficientes para o caso brasileiro - o Fundo admite o que os latino-americanos não se atrevem ainda a reconhecer: a possibilidade da América Latina não poder continuar carregando com o ônus da dívida, nem sequer mais com o custo de sacrificar o desenvolvimento, nada obtendo com a prolongação da agonia com empréstimos, cada vez mais impagáveis, como o caso argentino já o demonstrou, e nem com apenas, a "reestruturação" da dívida, porque, isso equivale ao mesmo: isto é, mais juros, mais dívida e, conseqüentemente, mais insolvência.

A dívida latino-americana não parece ter outra saída, a não ser através de medidas radicais, tais como uma renegociação que conduza a uma drástica redução do seu montante, ou à suspensão do pagamento e os juros durante dez anos, para permitir que - conforme o exemplo do Capítulo XI - as economias latino-americanas se recuperem, os países prosperem e a capacidade racional de pagamento se fortaleça, o que exigirá, como primeiro passo, tratar de "renegociar" a dívida com seus credores privados ou, politicamente, com seus governos, conforme seja o grau de consciência do problema e da urgência em resolvê-lo, antes que venha explodir.

A alternativa para os credores - já pagos quatro vezes com os juros - poderia residir na possibilidade de perder todo, perder parte ou demorar em receber o pagamento. Para América Latina, a perspectiva de voltar a enfrentar, em dez anos, uma dívida sempre infinita, com pagamentos renegociados em termos compatíveis ao desenvolvimento econômico e social, não pode ser pior do que o desastre anunciado que enfrenta hoje. Porque, pode imaginar-se o que significaria para a América Latina, se os US$300 bilhões que cada ano se enviam para os credores estrangeiros, fossem investidos durante dez anos em seu próprio desenvolvimento...? Isto é, US$300 bilhões multiplicados por 10. Uma ordem de grandeza financeira que jamais se concebeu sequer na América Latina.

O problema é, mais uma vez, quem coloca a coleira no cão ...? Porque a ameaça de "se não me pagas não te empresto" inibe a todos. Porém, já se viu na Argentina aonde conduzem os empréstimos de "salvamento" ao chegarem as primeiras insolvências. E, respeito aos empréstimos "normais", vemos também como são reduzidos conforme os investidores e os prestamistas desconfiam ou perdem interesse numa América Latina prostrada pela dívida. Num perverso círculo vicioso que leva os latino-americanos a perguntar-se: onde está o negócio ao te emprestarem US$1 bilhão ao ano, se tens que pagar US$3 bilhões, para falar apenas nas dívidas menores e menos comprometidas.

Para piorar, América Latina perdeu recentemente duas oportunidades de expor ao mundo o grave problema de sua dívida: primeiro na Cúpula Hemisférica de Monterrey no México, convocada para tratar o tema de "O financiamento do desenvolvimento e a luta contra a pobreza", quando não só silenciou seu problema além de não denunciar a farsa que significa falar em financiamento do desenvolvimento quando só América Latina transfere US$300 bilhões anuais aos países desenvolvidos e tem, além disso, que enfrentar, ao igual que o resto do Terceiro Mundo, os US$400 bilhões com os quais esses países subsidiam, anualmente, seus produtos agropecuários para fechar seus mercados à concorrência dos paises em desenvolvimento. Em troca disso, só destinam uns duvidosos US$50 bilhões como ajuda ao desenvolvimento. Com o que o problema que nossos países continuam enfrentando é na realidade "o financiamento da pobreza e a luta contra o desenvolvimento".

A segunda oportunidade perdida - forçosa conseqüência da anterior, e que constituía sua preparatória - foi a Cúpula a nível mundial de Johannesburg, na África do Sul, convocada em torno ao tema "Desenvolvimento sustentável", uma invenção dos países desenvolvidos para esvaziar de conteúdo político o debate histórico sobre o desenvolvimento autêntico e desviar a atenção para o tema do meio ambiente - quando são eles que o degradam sem querer aceitar nenhum limite nem restrição - antepondo, como diziam seus críticos naquela conferência, "os passarinhos à pobreza". Naquela armadilha maquiavélica já caíram os países em desenvolvimento.

Ao silenciar seu problema básico, América Latina segue projetando ao mundo a impressão que o drama da dívida, não existe e que está satisfeita e conforme com a situação. A realidade é, todavia, outra, e Lula o sabe muito bem. Basta com ler "The Wall Street Journal", máximo porta-voz da ortodoxia capitalista, que vaticina o colapso brasileiro para o 2003, porque, apesar das proclamadas conquistas neoliberais do convertido Presidente Fernando Henrique Cardoso - sob cujo governo a dívida pública aumentou de 30 % para 60 % do produto bruto brasileiro - o fato irrefutável é que Lula herda um país insolvente, por mais que parte da dívida esteja em mãos de brasileiros. O novo Presidente encontra-se assim, ante o dilema, que é também de toda a América Latina, de, se chegado o momento da verdade, continuar endividando mais e mais seu povo, condenado-o a reiniciar ao infinito, o trágico círculo da hemorragia financeira: recessão e pobreza, ou de iniciar o caminho de sua liberação

Empreenderá o novo mandatário o mesmo torturado caminho da Argentina, para finalmente entrar em colapso na exaustão total, que não serve a ninguém nem a nada, ou assumirá a responsabilidade de evitar que isto aconteça ao Brasil...? Lula tem sido toda sua vida um lutador insubornável em prol de seu povo e conhece bem a origem fraudulenta da dívida. É difícil imaginar que o maior e mais poderoso país da América Latina tenha um governo de esquerda, cujo Presidente tem vínculos pessoais com Hugo Chávez e Fidel Castro - tróica à qual poderia se somar o coronel equatoriano Lucio Gutiérrez - e que, no entanto, esse importante giro histórico não tenha incidência na vida e destino da região.

Mas, ao mesmo tempo, essa dramática interrogante pode alentar a possibilidade - por remota que possa parecer - que, apôs a traumática experiência argentina, aqueles que controlam o poder financeiro no mundo notem a urgência de dar ao Brasil uma saída heterodoxa, que lhe permita dispor de recursos próprios, em grau suficiente para conjugar a estabilidade financeira com o crescimento econômico e com a transformação social, que constitui o compromisso histórico de Lula com seu povo, evitando assim, ao continente e ao mundo, as graves conseqüências que implicaria na implosão nâo só de mais um outro, senão do maior e mais importante, país da América Latina.

Transcrito do Website da Revista Peruana Caretas, em 08 Novembro 2002 e traduzido ao Português por Guillermo Ortega