Diário EL PAÍS, Madri, Espanha, 17 de janeiro de 2002

Carta para Lula
Por Luis de Sebastián (*)

Senhor Presidente,

Sou um dos muitos cidadãos espanhóis que ficaram imensamente felizes pelo seu triunfo eleitoral. Desejo com toda a minha alma que o senhor possa fazer do Brasil e, por contágio, de toda a América Latina uma terra mais próspera e mais justa. Porém, tenho medo.

Levo mais de 40 anos observando, estudando e vivendo os esforços dos povos da América Latina para superar a opressão e a pobreza, e minha experiência se interpõe como uma sombra nos meus olhos quando trato de enxergar o futuro. Morei muitos anos em El Salvador, onde quase deixei minha pele ao ficar do lado daqueles que lhe elegeram. Logo depois, fui empregado do Banco Interamericano de Desenvolvimento e nessa posição trabalhei no Brasil e pude formar uma opinião técnica sobre a complexidade e os desequilíbrios de sua economia. Agora, lhe escrevo porque, no meio do meu entusiasmo pela sua vitória, assalta-me o medo de que a oligarquia tradicional, esse 5% da população do Brasil que possui mais da metade - Só Deus sabe quanto...!!!- da riqueza do país e que recebe, a cada ano, 60% da renda nacional, não deixe o senhor levar a cabo seus projetos de reforma social.

Lembro quando o presidente Allende começou pôr em marcha seu experimento reformista no Chile, um padre jesuíta, que naquele tempo então apoiava a Unidade Popular, passou pela nossa universidade em El Salvador para nos explicar o projeto. Depois de ouvi-lo entusiasticamente, um dos professores, sem dúvida "tarimbado" pela experiência política na América Central, lhe perguntou com toda ingenuidade: "Mas, vocês não temem um Golpe...?". O jesuíta chileno o olhou com certa superioridade, próxima do desprezo, e respondeu: "Olha, o Chile é uma democracia amadurecida. Não estamos, com seu perdão, numa republiqueta de bananas". Meses depois soubemos que sim o estavam. Entende meus temores?

Em El Salvador, o menor país da América Latina, onde os fenômenos sociais acontecem em escala reduzida sendo, portanto, mais fáceis de observar e analisar, aprendi de primeira mão como pensa, analisa, conspira e atua a oligarquia. A oligarquia do Brasil, a qual o senhor vai ter de enfrentar para desenvolver seu projeto, será mais ampla, complexa, sofisticada, política e negociadora do que a de El Salvador nos anos 60, porém, no fundo não é diferente. Como não o é a da Venezuela. Seus membros são movidos pelos mesmos estímulos: a cobiça, um desmedido apetite pelo poder, a decisão de manter íntegras suas posses e privilégios, e uma determinação extrema para defendê-los até as últimas conseqüências. Por isso, as oligarquias latino-americanas - e a brasileira não é exceção - resistem com sucesso todas tentativas de mudança social, originadas tanto no centro como na esquerda. A "sociedade dual", da qual o Brasil é um exemplo exímio, se mantém intacta através dos tempos.

A oligarquia brasileira agora não tem pressa, porque, embora o senhor ganhou a eleição presidencial, ela conserva bem segura a alavanca do poder real, que é o poder econômico. Além do mais, o senhor não tem maioria no Congresso e ela está contando e reorganizando suas forças para fazer uma oposição decisiva quando o momento chegar. Já devem ter começado a estudar um por um os membros do seu Gabinete e de toda a equipe técnica do governo, para detectar quem pode ser mais "accessível" e mais "razoável".

Sua primeira estratégia será, como já o estamos vendo, a cooptação. Trataram de apagar as enormes diferenças que separam as demandas dos seus eleitores dos projetos que ela estaria disposta a aceitar. Elogiarão sua moderação e sua sensatez com a esperança de conduzi-lo, aos poucos, a aceitar que a defesa dos interesses oligárquicos é uma tarefa própria de um bom governo. Permitirão que faça gestos progressistas, como a renúncia à compra de aviões de guerra, o que realmente não os afeta, e lhe apoiarão se tomar medidas para aumentar a segurança pública, combater a mendicidade nas ruas e aliviar a miséria mais visível das grandes cidades. Respaldarão, provavelmente, sua posição negociadora sobre o Tratado de Livre Comercio para América Latina (ALCA), porque garante às empresas brasileiras a proteção que agora desfrutam, e no fundo, porque sabem que os Estados Unidos não têm um interesse vital de o tratado funcionar. Aplaudirão as ações, um tanto desesperadas, de seu Governo para renegociar a dívida externa, sempre que não mencione sua recusa, porque a maior parte dela é privada, consistindo em bônus que em todo caso será muito difícil de renegociar. Em resumo, no inicio, a oligarquia pode passar a impressão que está com o senhor.

Porém, se pretender tocar a propriedade da terra, ou a do solo urbano, os impostos, a previdência social, as leis trabalhistas, e em geral, quando pretender impor as medidas redistributivas que são normais nas economias de mercado socialmente avançadas, terá de ver-se com ela. Não duvide, porque se em quase 200 anos de independência não se fez nada para eliminar as condições feudais ou semifeudais em que vive uma grande parte da população brasileira, por que o farão agora, precisamente, quando a Guerra Fria acabou e já não existe o perigo de uma revolução armada como a bolchevique...?

Quando esse momento chegar, a oligarquia empreenderá o conhecido caminho das campanhas na mídia, a desestabilização econômica, o bloqueio do Parlamento, as mobilizações e manifestações de seus servidores, os ruídos dos sabres, as falências empresariais e tudo o que seja necessário para dar a sensação de desgoverno e ingovernabilidade, para assim preparar o caminho em direção de outras eleições ou a um golpe de Estado cruento ou não. Já o vimos tantas vezes... A incógnita aqui estaria na atitude dos Estados Unidos, que não mais temem o Brasil, se alinhar com a desaparecida União Soviética. Porém, podem temer uma união sua com Chávez e Castro, para limitar o poder econômico norte-americano no continente. Podem não gostar e colocar em movimento seus peões especializados em subversão de regimes elegidos popularmente. Amigo Lula, não perca de vista os militares, que em toda a América Latina constituem a Quinta Coluna do Império.

Aguarda-lhe uma dura luta pela frente. Faça ver aos seus seguidores que a esperança não é incompatível com a paciência nem com a prudência, necessárias para governar. Não deixe ninguém corromper seu Governo, nos altos cargos da Administração, porque a corrupção com o fanatismo e a soberbia das vanguardas, são o câncer que pode corroer por dentro seu projeto de progresso. Organize as bases que lhe colocaram na Presidência para que defendam os projetos que os beneficiam. Negocie com decisão e força com os poderes econômicos e faça-os ver que uma desestabilização da economia brasileira (por meio de uma fuga de capitais, por exemplo) levaria o país a uma crise financeira de graves conseqüências para todos.

Enfim, senhor presidente, lhe desejo melhor sorte que aquela de Arbenz, Allende, Torrijos, Bishop - e, agora, a que Chávez está tendo - e a de todos aqueles governantes reformistas, cujos projetos caíram vitimas da "aliança contra o progresso" entre as oligarquias nacionais, os exércitos herodianos, as multinacionais e os agentes da Guerra Fria.

O mundo inteiro lhe contempla cheio de esperança. Não os desaponte. E, se mais uma vez, tratarem de impedir de que algo mude no Brasil, lhe prometo unir-me à mobilização universal que acontecerá em defesa de seu projeto democrático de progresso e reforma.

Afetuosamente.
Luis de Sebastián

Este texto foi enviado via E-Mail, para VOZ IBEROAMERICANA, pelo jornalista Peruano Guillermo Tejada Dapuetto.
Foi traduzido do Espanhol pelo Grupo de Trabalho para Traduções da GROSREM A. I. T.