Recicle-Age
por
Feliciano Tavares Monteiro - 05 de maio de 2007
Os
ciclos de produção anteriores ao século
XXI consagraram, no Brasil, os Setores Primário e Secundário
respectivamente e acabaram consolidando diretrizes e planos
que serviram para organizar a sociedade. Organização
que não se deu só em função das
hegemônicas modalidades de produção, mas
que ocorreram graças a utilização de diversas
matérias primas e energéticos disponíveis
na hinterland. No ciclo primário - produção
agrícola/pastoril - serviu-se de modalidades urbanas
rarefeitas e esparsas. Nos engenhos de cana-de açúcar,
com suas fazendas ou casas-grande, é que se produzia
e se geria tanto os recursos naturais como os energéticos.
No
ciclo secundário - produção industrial -
é que, realmente, passa a se utilizar as cidades como área
matriz de produção. Ali, no espaço urbano,
é que se localizam, além da mão de obra abundante
e do capital, o conhecimento tecnológico e o aporte necessário
de energéticos - cujos exemplos nacionais mais clássicos
são: lenha, petróleo, gás, carvão
vegetal e energia hidrelétrica. Mas as cidades, não
sendo capazes de produzir em seus territórios as energias
necessárias às demandas do processo industrial,
transformam-se, rapidamente, em importadoras de matérias
primas e de energia. Estes dois ciclos produtivos, mesmo sendo
tão díspares, consagraram gestores que souberam
buscar o incremento da produção mantendo sob constante
observação não só os recursos humanos,
mas também os consumos de matérias primas e dos
energéticos. Nos primeiros cem anos da República,
só o Japão apresentou crescimento com taxas similares
às do Brasil.
Com
o advento do atual modelo de produção - voltado
para o setor terciário- é que a gestão de
muitos empreendimentos, talvez em decorrência de uma certa
alienação espacial decorrente do agigantamento dos
territórios atendidos, passou a desestimular a gestão
simultânea de matéria primas e de energéticos.E
este descompasso representou, e ainda representa, riscos e altos
custos para as organizações.Porém graças
a alguns eventos globais e a diversas preocupações
locais, começaram a proliferar algumas iniciativas voltadas
para:
- ECONOMIA
DE MATÉRIAS PRIMAS;
- EFICIÊNCIA
ENERGÉTICA - ou conservação de energia;
- OTIMIZAÇÃO
DA GESTÃO PÚBLICA.
Na primeira modalidade pautam-se todas as iniciativas voltadas
para a preservação da natureza e minimização
do consumo, a ECONOMIA DE MATÉRIAS PRIMAS visa:
1.1- Reduzir o consumo - na compra de materiais e equipamentos.Ou
seja, minimizar o acesso incontrolável às matérias
primas;
1.2 - Reaproveitar elementos - dar outros usos a objetos e materiais
que
foram utilizados poucas vezes, ou estão sem utilização;
1.3 - Reafirmar os bons exemplos - nas áreas onde houve
uma excessiva modernização de hábitos,
tenta-se reimplantar formas e costumes utilizados no passado
- sempre levando em conta a renda e a aceitação
cultural dos envolvidos, visando assim se viabilizar um salto
de qualidade na direção da contemporaneidade.Há
uma crescente reafirmação dos usos de bicicletas
em ciclovias, utilização solidária de veículos
de passeio, e do costume de levar sacolas de pano aos supermercados.
Na
segunda modalidade, EFICIÊNCIA ENERGÉTICA, pautam-se:
2.1 - A requalificação energética - que
a partir de um diagnóstico nas áreas de produção
e serviços busca identificar os montantes e qualidades
de energias envolvidas- bem como os seus patamares ideais
de consumo.A requalificação tem por base um
processo contínuo de monitoramento e checagem.Auditorias
de energia podem apontar modificações em escritórios
e novos lay-out para coberturas, divisórias, corredores,
portas e janelas.Bem como em instalações de
refrigeração - visando com isto se minimizar
as perdas de energia;
2.2 - Reciclar objetos - nos casos de não se conseguir
dar destino a alguns elementos estes necessitarão ser
captados e reprocessados para retornarem ao uso coletivo,
ou se re-adequarem para serem devolvidos aos seus ambientes
de origem.A concentração de moradores nas cidades
fez com que se multiplicassem diversas modalidades de resíduos.E
no ambiente urbano a arte de reciclar objetos passou a servir
de fonte de renda.Hoje graças a esta renda, de reciclagem,
vivem muitos "soldados- industriais"- veteranos
e veteranas que foram excluídos do processo bélico
da sofisticadíssima, e altamente competitiva, produção
do setor secundário.
3. Finalmente
na terceira modalidade - OTIMIZAÇÃO DA GESTÃO
PÚBLICA - deverão
se incluir: - inovação tecnológica, capacitação
de pessoas, validação e ordenamento de: aprendizados,
fluxos e processos.
É,
portanto, perceptível que nestas buscas de ECONOMIA DE
MATÉRIAS PRIMAS, EFICIÊNCIA ENERGÉTICA e OTIMIZAÇÃO
DA GESTÃO PÚBLICA a variável energia, volte
a ganhar visibilidade e importância. As gestões contemporâneas
já foram alertadas
disto pelos preços ascendentes dos energéticos e,
depois dos duros alertas da comunidade científica internacional-
tendo por pano de fundo o aquecimento global- a sociedade deve
passar a se preocupar, cada vez mais,com pautas onde se incluam:
- análise
dos invólucros das edificações(modalidades
de construções e reformas prediais com menor energia
agregada),
- daylighting,
- fluxos
termodinâmicos (e entropia),
- energia
solar( para aquecimento e fotovoltaica),
- sistemas
alternativos de abastecimento d'água,
- metodologias
de acompanhamento de resíduos,
- condicionamento
de ambientes,
- perenização
de recursos capazes de viabilizar a manutenção
de sistemas energéticos, etc.
A
evolução para uma Idade de Reciclar, Recicle-Age,
tende a acontecer porque a visão pós-moderna é
mais pautada nas experiências de redes e não se suporta,
unicamente, nas convencionais verticalizações e
centralizações copidescadas dos ambientes industriais.Talvez
graças aos graves conflitos ambientais que ocorreram ou
estão em curso, passou-se a perceber que é impossível
atacar qualquer tópico, inserido no ambiente contemporâneo,
individualmente. Pois tanto as representações como
a solução dos problemas, normalmente, transcendem
à visão compartimentada concebida nas forjas metálicas
da modernidade. Aparentemente a Recicle-Age cobra uma complexidade
ainda não existente nos manuais ortodoxos do setor secundário.
E ela também não se apresenta com um modelo de comunicação
padronizado em suas diversas faces. Contar com uma linguagem comum
ao estado, às empresas e aos indivíduos - como aparentemente
os softwares livres se dispõem a fazer - pode ser um fator
que, a curto prazo, se transforme em um forte diferencial empreendedor;
neste ambiente competitivo que estamos cada vez mais nos inserindo.
O
futuro das organizações dependerá da arte,
e velocidade, em transcender a dita modernidade. Urge que os sistemas
passem a absorver também as visões consideradas
"de fora do sistema" e se agregue, às atuais
estruturas, outras modalidades de análises-sistêmicas-
indispensáveis ao resgate da vida junto à natureza.
E uma variável como a energia jogará um papel insubstituível
neste cenário de transição. Pois na mutação
de uma sociedade, que deixa de se abrigar sob a hegemonia do setor
secundário, para se proteger sob as asas do setor terciário,
poderá se constatar que dia a dia as instalações
fabris deixem de ser as novas oficinas de gestão de paradigmas
e os ambientes onde se inserem as processos mais voltados para
a prestação de serviços e comércio-como
universidades, hotéis, shopping e hospitais- passem a liderar
as concepções de novos modelos,processos e métodos.Todos
eles voltados para o aperfeiçoamento da vida em uma sociedade.
Sociedade que já perdeu o fascínio pelo moderno
e deseja, cada vez mais, se auto-afirmar como contemporânea.
Algumas
fontes:
-
GOUVÊA, Luis Alberto. Biocidades: conceitos e critérios
para um desenho ambiental urbano (...)- Editora Nobel - São
Paulo- SP- 2002.
- MONTEIRO, Feliciano Tavares. O Sino do Meio - ambiente, continente
e cultura, Ed. CABINCLA - Salvador/Ba - 2002.
- Jornal A tarde - Artigo de 24 de abril de 2005 - Arquitetura
Sustentável é tema de Pós.
- Relatório preparatório da CNUMAD 1992 - Nosso
futuro comum.
- Documentos ISO - 9000 e ISO - 14000
- Subsídios para a Agenda 21 (união, estados e municípios).
- Orientações de organizações não
governamentais - ONG's
- Administração da Produção - SLACK,
Nigel e outros.
Dados
do autor no site
Sinodomeio
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