Desafios
trabalhistas na pós-modernidade
por
Feliciano Tavares Monteiro
Os
jornais estão cheios de notícias e com muito pouco
de política. Política pública propriamente
dita. Sobreviveram nesta nossa recente democracia apenas duas
facetas: o denuncismo moralista, clonado da Roma antiga
e as perversas práticas de conluio entre o poder público
e as grandes empreiteiras - que aterraram no Brasil após
a construção de Brasília. Estas facetas
como que se transformaram em ideologias únicas
e seduzem muitos e muitos em todos os pólos. Mas a juventude
não gosta de uma e tem nojo da outra. No Brasil e no
mundo os jovens desejam e cobram a sua participação.
Mas, os assuntos da pauta politiqueira não são
os assuntos que eles, jovens, gostariam de debater.Temas
candentes como adoção de software livre, genética,
nanotecnologia e robótica devem
ficar sempre para "as próximas reuniões".
Queiramos ou não, serão as decisões sobre
temas como estes que conformarão as novas relações
de produção e do ambiente trabalhista.Fugir deles
é como fugir da construção do "Brasil:
país do futuro"
Falar
de tempos onde o presidente necessitava empurrar o carro do
ministro da fazenda, parece uma piada. Porém isto não
aconteceu há muito tempo. Aconteceu durante a elaboração
do Plano Real. O carro quebrado era um Lada, do ministro Fernando
Henrique, o presidente que fez este histórico esforço
físico foi o Itamar Franco. No livro O sino do meio
eu enalteço a grandeza de Itamar - que as elites gautâmicas
chamam de caipira - mas acontece que este país deve quase
tudo aos caipiras e talvez ignore isto. Estudei em uma das poucas
universidades caipiras do Brasil e por isto não temo
o modo de pensar interiorano. A frase que mais meu deu
prazer de ouvir, em uma assembléia de eletricitários
de Paulo Afonso, foi proferida por um experiente, e sinergético,
catingueiro:- "Nós trabalhadores temos que deixar
de enveredar por estas pequenas trilhas de bodes, temos é
que percorrer as grandes avenidas."Ele, o catingueiro com
trajes rústicos e mãos calosas, que em qualquer
palácio seria alcunhado de caipira, intuía a política
que merecemos formular e desfrutar. O povo não teme tomar
decisões, entre dores e alegrias faz isto a todo o momento.Quem
foge das decisões são os que ganham com os seus
adiamentos e, é claro, todo grupo adversário de
nosso sucesso.
Estes
nossos figurões só se dizem modernos para poder,
em seus retiros privados, aproveitar de suas práticas
muito mais atreladas ao passado, do que as que eles denominam
caipiras. Entretanto, as soluções, deixadas a
cargo dos caipiras e tabaréus, não são
de se jogar fora.Além da pecuária, borracha, cacau,
café, soja, mamona e álcool estão aí
para silenciar os preconceituosos.
O
país resolve seus desafios conforme eles se apresentam,
os jovens fazem isto, os países jovens também
fazem isto. Em épocas passadas soubemos resolver com
grandes estadistas as questões do petróleo e da
energia elétrica, e mais recentemente, a questão
da inflação.A atual calmaria econômica deve
ser aproveitada para listarmos e priorizarmos os problemas que
merecem serem resolvidos imediatamente.As questões ligadas
ao meio ambiente, aquecimento global e às futuras fontes
de energia devem - em minha opinião encabeçar
a lista. No dilema entre construir mais hidrelétricas
ou optar por usinas nucleares a população terá
que ser ouvida terá que participar.
O
pessoal simples do interior quando tem um problema o resolve
em comunidade. Isto
é coisa de caipira dirão uns, isto é inviável
tecnicamente dirão outros.Tudo isto é medo de
ouvir e, ou, preguiça de decidir. Já temos tecnologia
para abarcar a coleta de milhares de opiniões e todo
jovem sabe disto.Acontece que o nosso país tem dimensões
gigantes, gente dispersa e diversificada e muitos, muitos adversários
formidáveis. Romper a nossa inércia urge. Só
a questão da água pode exigir agenda para dezenas
de fóruns. Os dois rios maiores em volume d'água
atravessam o nosso território - Negro e Amazonas- e ainda
temos as preocupações com o Aqüífero
Guarani que merece outros tantos eventos, junto ao Cone Sul.
Pautados
em modelos de fazendas e usinas açucareiras escravocratas
a maioria de nossos governantes, que se diz moderna, vive com
medo e com temor de seus vizinhos.E, por querer decidir tudo
sozinha, nada consegue implementar de forma que se considere
aceitável.
Perdidos
neste mar de paradigmas novos os partidos políticos,
criados sem conhecer os poderes do homem-massa de Ortega Y Gasset,
julgam que são advogados dos contribuintes e teimam em
adiar "os julgamentos" de sua clientela; quando o
correto era antecipar ao máximo as decisões.Decidir,
decidir e decidir.
Nossos
dirigentes partidários ou não, que se agasalham
no imobilismo legal, tem duas defesas fortes para as suas práticas:
a primeira é constatar que as macro-soluções
ambientais e energéticas terão que ser tomadas
juntamente com os países e povos vizinhos do Brasil (*)
- naquela base de conversa, caipira, do interior. E a segunda
é a desculpa de que o nosso povo é pouco escolarizado,
uma verdade verdadeira e amarga. Mas o trabalhismo de Darcy
Ribeiro e Brizola -caipiras fazedores incomparáveis-
nunca olvidou da educação e soube sempre oferecer
alternativas para este desafiante tema.
Com
as novas tecnologias de informação e comunicação
uma nova faceta pode e deve
aflorar, e provavelmente estas vozes caipiras passem a ser ouvidas;
como nunca.O fio da história não foi interrompido
e a fibra ótica pode ser sua aliada neste competitivo
forró internacional que estamos inseridos.
Feliciano
Tavares Monteiro - (*) filiado ao PDT desde 1990, encabeçou
a tese, aprovada no congresso do PDT-1992, de intercâmbio
trabalhista com os povos e países do Mercosul. Graduo-se
na Universidade de Santa Maria/RS, a primeira com campus no
interior do Brasil e a receber estudantes, conveniados, da América
Latina.