Bem-vindo Portal de Abrantes

Por Guillermo Ortega - 10 maio 2007

As pessoas são simplesmente pessoas. O meio em que nascem e vivem é que as torna boas ou más. Esse é um predicado existencial que é primordial empenhar-se em preservar ao longo da vida. Por esse motivo, sempre me perguntou se Deus nos perdoará pelo que temos feito uns aos outros por séculos, em particular, os últimos neste continente das Américas.

Um conhecido semanário de circulação nacional publicou, recentemente, que os índios estadunidenses estavam se transformado em milionários a partir da instalação de cassinos em seus territórios, em suas "Reservas", falando mais claro, nos conclaves de segregação criados pelos EUA para manter os donos da terra confinados, sem se envolver com nada nem com ninguém. Algo parecido aconteceu depois com os Indios no Brasil que a pesar de, por exemplo, serem capazes de se tornarem exímios operadores de equipamento eletrônico-digital são considerados, oficialmente, "idiotas". Sim, uns "idiotas" que até quando adultos devem ser tutelados sob o argumento de preservar suas culturas e patrimônios, em especial, estes últimos que já lhes foram usurpados e o continuam sendo.

Certa feita, lá vá já algum tempo, conheci um historiador Alemão que tinha oito anos de residir na Bahia. Morava com uma jovem mulata, muito bela, que o amava e o cuidava como se fosse um ser extraterreno que a qualquer momento podia decolar e ir embora. Realmente, ele podia não ir embora a qualquer momento, mas sim, ser expulso do País por estar aqui todo esse tempo vivendo de forma irregular. Era um Alemão clandestino, coisa que não lhe importava um tostão furado. Se isso acontecesse - comentou comigo - pagaria a multa e voltaria, novamente, porque nunca tinha feito nada contra a lei, a não ser aquela situação de estar clandestino, uma falha operacional que lhe provocava densas risadas com ressonância em sua enorme barriga, fruto de litros e mais litros de cerveja, apesar das longas caminhadas diárias na orla marítima para manter a forma.

O nome Karl será usado em razão de não lembrar o verdadeiro, mas recordo sim, tratava-se de um historiador formidável pelo grau de conhecimento alcançado em seus estudos e pesquisas sobre o passado, realizadas nas bibliotecas dos conventos baianos, grandes depositários da historia deste Brasil. O Alemão ficara estarrecido quando descobriu que o conceito de Campos de Concentração já havia sido aplicado aqui para proteger os domínios geográficos na época da colônia, conquista ou invasão pelos Portugueses.

Como é do conhecimento geral, os Índios não eram considerados gente pelos Portugueses, tampouco pelos Espanhóis nem os Ingleses no resto das Américas. Eram algo muito parecido com os seres humanos, igual posicionamento seria aplicado com os Negros quando aqui chegaram como escravos e, dito seja de passagem, isto, ainda perdura em alguns lugares desta enorme América Latina.

Todos os ferozes e antropófagos Tupinambás dos territórios da Bahia teriam sido, segundo Karl, confinados nas terras do que hoje é esta pacata e aparentemente ordeira Vila de Abrantes. Sim, aqui houve um Campo de Concentração, mas para meu entender, tratava-se na realidade de um enorme Muro de Contenção feito de carne humana para deter as tentativas dos Holandeses de invadir estas terras e tirá-las dos Portugueses.

Não vou aprofundar nesses temas porque não sou um especialista. Meu papel é apenas o de comentar informações e conceitos para serem avaliados, ponderados e investigados, aceitos ou recusados pelo leitor. Mas, quando se trata de identificar o passado, acabo por ter um grande sentimento de vergonha. Essa atitude de tomar, de se apropriar daquilo que é alheio, que pertence a outrem, provoca-me asco muito em particular quando envolve os chamados bens raízes, costume malfazejo que teve inicio contra os proprietários legítimos deste continente ao aportarem os Europeus.

Certa feita encontrei, na Boca do Rio, um rapaz que tinha trabalhado como motorista de um veículo da nossa propriedade. "Venha conhecer meu patrimônio - comentou cheio de comovedora felicidade - está avaliado em mais de trezentos mil dólares". "Ótimo" - falei. "De que se trata?" - perguntei. "'Ta vendo esses três prédios ai? São meus. Eu e minha mulher invadimos essas terras e em dois anos ficamos ricos". "Que bom! Parabéns. Mas agora preciso ir, outro dia passo para lhe visitar, abraço". Fugi daí. Eu não tinha nada a ver nem falar com um ladrão, com um grileiro como atende aqui o ladrão de terras.

Mas, não é necessário ir extramuros da pacata Vila de Abrantes. Um irmão deste escriba comprou de uma imobiliária um terreno para construir uma casa de veraneio logo atrás do hoje condomínio situado na entrada à vila. Cometeu o erro de não cercar logo e começar a construir nem que fosse fingindo que estava iniciando a obra. Em pouco tempo, a área tinha sido invadida, roubada por algum especialista nesses misteres com a maior cara de pau.

Tive a satisfação de conhecer durante minha forçada permanência naquela Vila de Abrantes,um grupo de residentes altamente motivados pelo amor que nutrem pela terra que adotaram para viver. Preocupados com os destinos desta, começaram se reunindo e pondo no ar um programa de debates que abordava os problemas de Abrantes contando muitas vezes com a presença de autoridades políticas. A emissora de rádio era uma estação pirata que é como se iniciam as futuras Estações Comunitárias, porém foi fechada pela autoridade federal.

Em lugares que tem pouca cultura, carência de conhecimentos, o comportamento dos empreendedores, uma condição inata no homem, se torna imitativa, ou seja, surge um negócio que parece ser inovador, logo, várias pessoas decidem imitá-lo, fazer a mesma coisa, com resultados, obviamente, nefastos para todos. Explicando melhor, um cidadão aparece com o projeto de uma Rádio Comunitária, na semana seguinte tem três querendo fazer a mesma coisa, aí o sinal da transmissão mesmo sendo fraco, termina por interferir na comunicação da aviação civil o que obriga o governo federal a localizar as emissões e tirá-las definitivamente do ar. Finito, Kaput para o projeto de uma Rádio Comunitária e aí por diante.

Com o advento da Internet como a mídia das mídias, esse grupo decidiu criar um site onde serão plasmadas todas suas inquietudes podendo inclusive até montar uma RadioWeb que não precisará mais da permissão de ninguém para transmitir seus objetivos e nesse sentido, desejo congratular o idealizador desse projeto porque a missão que tem pela frente é e será muito árdua. Aqui se trata de devolver à Vila de Abrantes, a dignidade, ausente nestes tempos pelos erros cometidos pelo povo na hora de escolher seus representantes. Isto, abrange todos os cidadãos até nos menores detalhes, como o fato das pessoas em Vila de Abrantes não respeitarem compromissos, ninguém observa hora marcada nem muitos menos telefona para dar uma satisfação. Evidentemente, ha exceções, mas que são pouquíssimas. Tudo isso faz parte da crise silenciosa onde o aspecto moral e a ética, são relegados senão ignorados.

A dignidade se constrói com princípios, com valores bem intencionados. Uma prática constante que exige ser exercida as vinte quatro horas do dia. A dignidade não pode existir no papel apenas como um nome gerando discursos vazios. Ela se faz com a participação de todos sob a égide do orgulho de ser um cidadão respeitador das leis divinas e humanas. Depois disso, tudo haverá de fluir bem, o povo tomará consciência e assumirá comportamentos civilizados. O consumo fatal do álcool diminuirá, o sexo prostituído é banido sem grandes esforços, a percentagem de roubos é reduzida porque os que praticam esse delito passam a ter vergonha na cara. Em fim, é uma tarefa que traz conquistas concretas e imperecíveis em prol do ser humano em curto e médio prazo.

Não se pode continuar a ter uma visão esquizofrênica da realidade local. Não se pode ignorar a existência de - nem sequer são favelas - agrupamentos de miseráveis como o chamado "Mutirão" onde a violência praticada pelos seus moradores é extrema a ponto de incluir até decapitação como algo normal entre suas formas de morte. A mídia nunca aborda isso, por que será? "Mutirão" é vizinho a um luxuosíssimo resort chamado BuscaVida que denota até no nome a origem invasora dos proprietários anteriores aos atuais, estes são simples investidores que atraem muito turismo de primeiro nível.

Vila de Abrantes foi a base de um Muro de Contenção Humano. Muito sangue tanto de Tupinambás como de Batavos está misturado na terra que acolhe hoje a aparentemente pacata vila e, sem dúvida, traz uma necessidade de resgate que deve ser pago por todos aqueles que escolheram este lugar para morar.

Muito trabalho espera ao grupo integrante do Portal de Abrantes. Se alguém pensa que poderá se promover com as ações a serem implementadas visando fins políticos, está rotundamente enganado. O tempo se encarregará de prová-lo. O objetivo do trabalho proposto é justamente o do resgate e a construção da dignidade de um povo, do seu resgate espiritual. Por essa razão, a missão da iniciativa abordada é transcendental, devendo ser apoiada e, acima de tudo, respeitada. Talvez, assim, Deus nos perdoe.

Guillermo A.Ortega Noriega, é Jornalista e Escritor além de Webdesigner premiado no Brasil e no Exterior. É Correspondente do Antípodas. Hispanic Journal da Austrália. É Fundador da ONG Gros-IPPH e do Grosnet-SWH Mora na Bahia, Brasil desde 1971. (mitortega@hotmail.com)