O Memorial de Rosa Matos

por Guillermo Ortega

É uma autopista moderna quase que bem tratada em seus mais de vinte quilômetros de comprimento ao longo de seus mais de vinte anos de existência. Quase, porque faltam detalhes que só se vem nos modernos Turnpikes dos EUA ou nas Autobahn da Alemanha, mas também estás cobram pedágio. Na realidade, quero crer que trata-se em si de uma alongada avenida para escoamento de um grande fluxo de veículos particulares e de transporte coletivo rumo ao norte da cidade de Salvador e do estado da Bahia.

Há uma linha de transporte que leva e traz da cidade até o condomínio onde moro em Vila de Abrantes, em hora e meia. Às vezes, em menos tempo, porém nunca menor a uma hora. Sentado vendo a paisagem passar geralmente mergulho em uma espécie de modorra. Foi nesse estagio que me encontrava ontem quando subitamente, entrei em consciência de lucidez total: tinha certeza de estar em uma Autobahn de Frankfurt. Sim, só podia ser isso. Ao longo de uns dez quilômetros, minha memória registrara os outdoors colocados um após o outro com mensagens para o Dia das Mães. Ledo engano, eu continuava em Salvador da Bahia, uma das cidades do mundo mais povoadas por Afro-descendentes, dizem que 80 por cento.

Os outdoors, todos, traziam belas mensagens com também belas mulheres loiras, olhos azuis que abraçavam ou beijavam outras igualmente belas criancinhas loiras, olhos azuis. Era uma celebração da mídia à raça branca. Ate ai tudo bem, tudo o mundo tem o direito de celebrar a raça de procedência em particular as pessoas que se preocupam com isso ou não tem o que fazer.

Agora, é ridículo, é cruel. È muita cara de pau das agências de publicidade veicular anúncios com personagens que não Afro-descendentes. Melhor, a força das raízes telúricas dos diretores das agências, os leva a sentirem a terrível necessidade existencial de homenagear seus alicerces genéticos: a tal de raça branca, tudo bem, que o façam, mas que não esqueçam que a maioria das mães aqui na Bahia é afro-descendente, crioulas, negonas, como se queira chamá-las e que ao passar em seus veículos ou coletivos pelas ruas e avenidas não se vêm sequer refletidas em um outdoor daqueles tudo porque o espírito Teuton de um diretor de arte ou o mulato - que pensa que é branco - diretor de uma empresa anunciante decidiram que as mães da Bahia só podem pertencer à raça do Klu Klux Klan.

O homem era alto, um metro oitenta e cinco talvez, sempre vestia terno branco de linho e camisas Arrow de cor azul claro, sem gravata. Calçava os primeiros Floorsheim que alguém pudesse ter naquela próspera cidade. Era um Sefardi de tez branca bronzeada pelo sol dos que andavam pelos campos verificando se alguém não teria tentado invadir as propriedades. Estava aí, na igreja de La Verônica, por uma questão de solidariedade ao filho que levara o primogênito para antes de morrer receber a benção do padre Pitta. O homem alto olhava sem o menor sinal de interesse no mise-em-scene preparado pelo pároco.

"Vamos encomendar este anjinho para o Senhor Todo-poderoso" dizia o padre Pitta no exato momento em que o homem alto invadia a área da pilha batismal e arrancava, firme e determinado, a criança das mãos da babá que o carregava. "Que anjinho, bosta nenhuma, me dê essa criança pra cá...!".

"Rosa, sei que você acabou de parir. Toma esse menino e devolve-lhe a vida. Ah, e não quero desculpas de qualquer natureza. É meu neto e quero que você o salve...!" Durante três dias e três noites, a criança mamou e mamou, defecou e defecou bolas brancas endurecidas de leite em pó. Leite Ninho, produto da tecnologia de guerra dos estadunidenses fazia parte das inovações geradas pela Segunda Guerra Mundial que já estavam presentes na vida dos abastados cidadãos da pacata cidade de Chiclayo, no litoral norte do Peru.

Em 1962, antes de seguir viagem aos EUA para estudar, procurei saber o endereço. "Dona Rosa, vim agradecer o que a senhora fez por mim há dezoito anos. O que a senhora tinha demais, a minha mãe carecia. Estou aqui forte e sadio e não queria viajar sem antes abraçá-la e expressar-lhe toda minha gratidão". "Vai com Deus, meu filho, que todos os santos te levem e protejam". Rosa Matos me abraçara carinhosamente ao tempo de uma parte da minha memória reconhecer de forma inconsciente, o perfume de sua pele. Rosa Matos era uma bela e sorridente senhora Negra que salvou minha vida quando eu estava mais pra lá do que pra cá. Devo, portanto, esta, a Dom José Dionísio, meu avo paterno, pela sua atitude drástica e a Dona Rosa Matos pelo leite que não só me alimentou como me tornou um homem agradecido.

Não sou Negro nem mestiço de Negro, mas tenho forte carga de melanina na pele conseqüência da miscigenação de outras raças que já andaram e andam desfavorecidas pelo mundo porque parece que melanina sempre representa um passaporte para cidadanias de segunda ou terceira categorias. Sei o que é a descriminação pela pele, experimentei isso nos EUA, nunca no meu País de origem nem no Brasil, só nos EUA. Foi terrível por isso que sempre falo: América - como se auto-intitulam - é um país maravilhoso, agora, maravilhoso só para eles e pronto. Que façam bom proveito!

Estou convencido que a única coisa que pode recuperar os destinos e a dignidade do povo, da massa Latino-Americana e, no caso, a Brasileira seja Afro-descendente, Mestiça, Indígena, Branca, Branquela, ou o que for, é a EDUCAÇÃO. Essa estória de quotas nas universidades para os melanizados é papo para boi dormir - peço desculpas por usar essas expressões, mas é daquelas que tem uma extraordinária capacidade figurativa de síntese.

Aqui se trata de ter os estudos patrocinados pelo governo como sempre o foi para um dia, quando o país tiver alcançado sua independência cultural e social, quando tiverem sido eliminados os analfabetos, ai então, poder-se-á negociar o não-patrocinio governamental para a educação por alguma outra concessão para o povo. Caso contrario, nunca chegaremos a lugar algum da forma que Cuba o fez.

Estive em Havana em 1998, convidado pelo Ministério da Educação Superior para conhecer como funciona o ensino universitário naquele país, quero deixar claro que paguei minha passagem e só a hospedagem no Hotel Universitário foi responsabilidade do convite. Trabalhava das 8:00 às 18:00 visitando as universidades de Havana e depois nas provincias. Sei o que é esse sistema de ensino universitário e começa ai a minha vergonha, minha inveja. Puxa, só me deixavam descasar aos domingos.

Desejo deixar bem claro, nunca fui de Esquerda nem nunca me disfarcei de Esquerda para depois dizer que sempre fui de Direita. Sou uma pessoa lúcida porque estudei e estudo muito. Nunca vou dar o privilegio à Esquerda ou à Direita para dizer que pertenço a alguma delas, de jeito nenhum. As duas têm coisas fabulosas como também tenebrosas. Tenho minha lucidez e dignidade descompromissadas.

Quando voltei de Cuba, tinha me tornado de certa forma, um homem amargurado, triste pela inveja carregada ao constatar que conseguiram a barbaridade de educar sua gente. Não há analfabetos lá, todo mundo tem um curso superior e as pessoas acima de 50 anos de qualquer procedência racial - não vi marcas diferenciadoras de classe social, a gente é gente e mais nada, brancos, negros, mestiços, isso não importa, quer dizer todos esclarecidos, geralmente falando mais uma lingua, profissionais liberais, porém, acima de tudo, gente - preocupadíssimos em fazer mestrado ou doutorado.

Comentam sobre o Comandante com certo distanciamento mas - acredito - com apego, diria, uma forma de gratidão. Ele devolveu, doa a quem doer, a dignidade a doze milhoes de cidadaos, e isso, não se paga nunca. Lógico, há os dois ou tres milhoes de Cubanos de Miami mas esses não eram pobres quando sairam da ilha que ainda almejam retomar (Pura mentira, quase cinquenta anos mudam a cabeça de qualquer um, ainda mais com as vantagens que o Imperio lhes da para confirmar que a Democracia dos EUA é a certa).

Por outro lado, a massa que ai está, teve outro destino que hoje provoca a cobiça do resto da América Latina pensante. Por aqui os manipulados pela midia pro-Império acreditam que é preciso libertá-los do jugo de Castro...! Os Cubanos da ilha riem deles.

Ele, o ditador, que tirou a liberdade do povo e cometeu injustiças com os intelectuais, perpetrou um erro terrível: educar seu povo e dar-lhe medicina de primeira e de graça. Ai, ele tirou a liberdade que o Império tanto defende e propala. Claro, uma colônia menos no conjunto, pior ainda, cheia de gente preparada, culta, porquanto, ao abrirem as portas de Cuba o mundo se verá tomado pelos Suecos da América Latina, isso é o que os Cubanos são em termos de eficiência, educação e preparo.

Por aqui, os problemas são outros: diminuir a idade para os jovens serem julgados como adultos; aumentar o contingente policial para reprimir a violência social; enfrentar a corrupção entrando nas nossas residencias, ao contrário, pelo ralo. Os grupos de extermínio bancados pelo comércio ceifam a vida de jovens que ja sabem não viverão mais de vinte anos. Soluções crueis que observamos pusilânimes.

Mas vivemos a democracia, a liberdade que o Império propala como a melhor coisa do mundo: ir e vir e destruir o vizinho sem pena nem remorso. Jogar bombas sobre um país e acabar com velhos, crianças. São eles defendendo the American way of life, the Freedom, Democracy, yes, their Democracy, just good for them! e nos olhando, ouvindo e acatando o que sua midia nos comanda.

Nesta cidade dos oitenta por cento de Afro-descendentes, quero deixar plasmado o meu agradecimento a D. Rosa Matos, que com toda certeza, sua negritude vinha de Angola via justamente Cuba. As raizes de todos os Hispano-americanos, sejam de que cor for, passam pela ilha caribenha. Era um entreposto inevitável. Para uns, uma parada para conquistas, para outros, uma parada ignominiosa. O passado nos une, acredito, muito mais que o presente.

Particulares e instituições de Afro-descendentes dos EUA e alguns paises da América Latina tem prometido à ONG que criei em 1999, viabilizar o projeto da homenagem para essa nobre mulher Negra que dividiu o que era dela e de seus filhos, com um estranho. Isto acontecerá quando a primeira pedra do Memorial Rosa Matos da Diáspora Africana nas Américas seja colocada na cidade de Salvador da Bahia, Brasil.

Guillermo A.Ortega Noriega, é Jornalista e Escritor além de Webdesigner premiado no Brasil e no Exterior. É Correspondente do Antípodas. Hispanic Journal da Austrália. É Fundador da ONG Gros-IPPH e do Grosnet-SWH Mora na Bahia, Brasil desde 1971. (mitortega@hotmail.com)