|
Ao
Amigo do Futuro
por
Guillermo Ortega - 01 maio 2007
Há
quase vinte anos, um nativo desta terra da Bahia que não
está mais entre nos, teve a tranqüilidade transcendental
necessária, que só os mestres possuem, para autorizar
a publicação do primeiro texto do subscrito, escrito
em Português Brasileiro, na página editorial d'A
Tarde.("Intromissão.
Até Quando...?", Sexta Feira, 17 de março
de 1989.)
Começava
assim, uma parte da minha vida dedicada a escrever nesta bela
língua com segurança cada vez mais crescente conforme
transcorria o tempo. Jorge Calmon de Bittencourt, diretor da Redação
d'A Tarde, foi esse Mestre.
Claro,
existiam na bagagem, trabalhos escritos em Espanhol e Inglês,
sob uma formação acadêmica previa naqueles
idiomas, o que permitiu, sem dúvida, que depois de muito
estudo tivesse a ousadia de dar os primeiros passos sérios
naquela que já vinha sendo a nova língua do meu
cotidiano.
Por
outro lado, alcançar e merecer o endosso de um Mentor do
Jornalismo Moderno Brasileiro exigiu ter lido muitas obras, revistas,
jornais até incorporar as nuances do idioma a ponto de
poder elaborar os pensamentos nele com propriedade.
É
verdade, depois de mais de 30 anos de Brasil, continuo a falar
com sotaque hispânico devido ao fato de ter me envolvido
com a língua portuguesa já na casa dos vinte sete
anos de idade e há uma certa receita comportamental que
enuncia: "Até os vinte e cinco anos de idade se
pode aprender a falar qualquer idioma sem sotaque". Bem,
naquela faixa de idade, aprendi além do Espanhol, o Inglês.
Não tenho sotaque quando o falo e posso até fingir
para me divertir, os mais variados como o do Texas, o da Califórnia,
o de Nova Iorque, de Londres, de Melbourne, etc.
No
Português, reconheço a procedência geográfica
dos falantes pela musicalidade das frases. Enfim, tudo é
possível no mundo dos idiomas. Somos resultado da interação
com outros e por isso preciso relembrar que no dia 22 de novembro
de 1973, ou seja, dezesseis anos antes da atitude do caro Mestre,
assinei graciosamente uma matéria com meu nome na Tribuna
da Bahia. Digo, graciosamente, porque esta foi escrita a quatro
mãos com a queridíssima Italva Mirtes Macedo, uma
amiga Baiana, grande escritora e roteirista, que teve a paciência
de corrigir e traduzir para o Português o meu relato sobre
a experiência de ter estreitado a mão do presidente
John F. Kennedy, duas horas antes de
ser assassinado em Dallas, Texas. Atendia, na época ao
convite do falecido amigo Antonio Escaríz, outro grande
jornalista que me apadrinhou nessa arte de juntar as palavras
com respeito, ciência e beleza em uma língua que
não a minha.
Logo
que cheguei no Brasil em 1971, fui passar seis meses em Belo Horizonte.
Experimentei em todo esse tempo a superconsciência de não
saber falar o idioma além da vergonha de me expressar em
forma errada, tudo isto, em consonância com o fato do pessoal
daquele estado ser introvertido, desconfiado, embora haja exceções,
mas ninguém falava com estranhos.
Esse
pé-atrás comportamental é característico
dos povos interioranos mais ainda daqueles situados em regiões
montanhosas, é gente rígida em seus conceitos e
colocações perante a vida porque manejam apetrechos
de rédeas curtas, não podem correr riscos de atolar
ou se perder na cerração. Além de o ar ser
rarefeito, a mais de mil metros de altura sobre o nível
do mar, o que diminui o desempenho físico de quem quer
que seja.
Particularmente,
nunca vi graça alguma em morar nas alturas e a primeira
vez que me deparei com o que seria essa desvantagem foi quando
sendo diretor de uma rede de Rádio e TV no Peru, tive de
ir a Cuzco, para visitar uma filial. Saltei do avião empunhando
a valise e andando em passo acelerado como se estivesse em um
aeroporto do litoral. Caminhei uns cinqüenta metros e cai
para acordar numa maca respirando com ajuda de uma mascara de
oxigênio. Por ser algo freqüente naquele aeroporto
minha falha operacional não teve maior importância.
Fui recomendado a ir com cuidado para o meu hotel, tomar uns chás
de folha de coca e descansar até o dia seguinte, a adaptação
demoraria uma semana e como era jovem isso deveria tomar, talvez,
menos tempo.
Nasci
no litoral norte do Peru enfrente ao mar e quiça seja por
isso a identificação com Salvador da Bahia de toda
nossa família que aqui aportou em 1972 para ficar, como
já mencionei em outra matéria, apenas uns quatro
ou cinco anos. O homem litorâneo é muito dado a falatórios
intermináveis, a soltar a imaginação uns
para o bem e outros utilizando isso para a malandragem. Uma forte
educação e cultura de comportamento inculcada desde
o lar garantem que haja pessoas confiáveis no litoral,
mas são, comparativamente, poucas, doa a quem doer. Diria
que esse é o lado negativo das praias e do sol de verão.
Com
a imposição discreta e sorrateira do Neoliberalismo
como modelo econômico vigente, em se tratando de um clone
degenerado do Capitalismo, o comportamento dos povos latino-americanos
vem sendo transmutado para versões abjetas.
Lamentavelmente,
o Brasil já esta inserido nesse modelo econômico
e embora ninguém comente sobre o assunto, as conseqüências
da sua presença se podem detectar na transformação
do comportamento das pessoas, em particular, dos profissionais
jovens. Estes irrompem das faculdades sem orientação
ética nem cultivo moral do caráter. Exercem o papel
de canalhas sem se dar conta e se empregam por salários
vergonhosos, menores ao que um gari de Nova Iorque ganha.
Estão
convencidos de que são os donos da verdade e passam por
cima de quem quer que seja, muito em particular, de seus próprios
velhos e como ganham pouco em subempregos que mesmo sendo isso,
exigem um diploma caro, ou seja, grande investimento; iniciam-se
na prática velada e leve da prostituição
de seus serviços como profissionais servindo a vários
amos em vários locais, empresas ou instituições.
Sem
dúvida, há profissões em que trabalhar em
diversos lugares pode ser feito. Outras não, porque exigem
fidelidade e principalmente ética em particular os que
trabalham na formação de opinião, nos meios
de comunicação. Não sei se me deixe entender.
A
verdade é que esses profissionais que são colocados
aos montes nos mercados todos os anos são conseqüência
nada mais do que a orientação e obediência
servil e oportuna ao Banco Mundial: "Um diploma é
como um par de sapatos. É um bem que tem que ser comprado
como tal. Educação Primaria, Secundaria e Superior
são bens que não podem ser pagos pelos governos.
Sapatos se compram, educação também tem de
ser assim ". Então,
eis a pilha de faculdades que surgem de um dia para o outro com
a missão de produzir só profissionais indignos -
salvo exceções, que são, infelizmente, muito
poucas.
Por
uma questão humanitária, que revelarei em uma outra
oportunidade, precisava ver publicado meu artigo de denuncias
"Os Croissants de Michel" antes do dia 25 de
abril passado. Por isso, bati a porta do jornal A Tarde e procurei
a gentil e conhecida profissional de muitos anos, D. Sônia
Pires, secretaria da Redação, que me apresentou
Cláudio Leal, um jovem jornalista a cargo da página
editorial que foi logo considerando meu artigo ser muito longo
e que - segundo ele - deveria ser coisa para a seção
de Lilia de Souza. Lá foi ele com o artigo e voltou me
garantindo que a matéria seria publicada na terça-feira
24 de abril. Achei ótimo e agradeci.
Terça-feira
24, 8 horas da manhã. Abri as folhas do jornal com o maior
cuidado e revisei página após página. Nada.
Absolutamente nada. Les croissants de Michel devraient être
maintenant durs comme un morceau de bois - Os croussants de
Michel deveriam estar duros como um pedaço de madeira!!!
Telefonei
para a tal Lilia de Souza e perguntei sobre a minha matéria.
Não lembrava o Cláudio Leal ter entregado alguma
coisa para ela, entretanto, prometeu que procuraria. Pedi a um
velho amigo que trabalha numa outra área e cujo nome vou
declinar. "Questionei o Cláudio Leal muito delicadamente,
mas ele desconversou e não deu informação
alguma conclusiva sobre o seu artigo."
Incomodei
novamente, D. Sonia Pires, que prometeu falaria com Lilia de Souza.
Finalmente, em pouca horas tinha a resposta. A editora considerou
o artigo muito longo para ser publicado e "Pim, pó,
Colorin, Colorado, el cuento está terminado".
Os
donos do jornal A Tarde são pessoas muito decentes e que
tem um pe na França porque em uma época Paris era
o lugar para onde os intelectuais do mundo inteiro convergiam.
O pensamento moderno era gerado e preservado naquela terra. O
professor Jose Abelardo Núñez Murúa, meu
bisavó paterno passou muito tempo em Paris preparando a
alfabetização do Chile - que hoje é o que
é graças a ele - lá pelo ano de 1860 quando
Ministro da Instrução Pública, iniciou a
promoção humana daquele país. Ninguém
poderia pensar em ações em prol da sociedade, um
jornal o é, sem beber d'água daquelas fontes.
Para
terminar estou aqui tentando conciliar a presença dos diretores:
o Sr. Bocayuva, acredito, neto do Dr. Simões Filho, fundador
d'A Tarde; do Prof. Edivaldo Boaventura, do Prof. Florisvaldo
Matos, todos pessoas ilibadas e corretas no âmbito de uma
redação que mais parece o que seria uma senzala.
Senzala porque quero imaginar que essas bases de opróbrio
eram desse jeito, interesses ocultos, preferências, abusos
e intrigas e salve-se quem puder, ou seja, quem melhor agradasse
ao Capitão do Mato ou ao Senhor do Engenho garantia a sobrevivência.
Sim,
esses comportamentos múltiplos se herdam, não desaparecem
de um dia para o outro como o fato das pessoas, mesmo instruídas
e cultas, não usarem na Bahia, o "não"
para definir ou concluir negociações porque a lamentável
herança da época da escravidão ainda se faz
presente. Alguém já imaginou um escravo respondendo
"não"? Escravos nunca respondem "não",
caso contrario deixariam de sê-lo. Em qualquer país
da Europa ou nos EUA, retrucar com um "não" é
tão importante quanto dizer um "sim". Nos paises
onde houve escravidão, custa muito ouvir essa interjeição.
Estariam
esses senhores ilustres e preclaros, sendo obrigados a compactuar
com a neoliberalização da Redação
do quase centenário jornal para poder garantir a continuidade
da sua missão? O Tempo tem a resposta.
 |
Guillermo
A.Ortega Noriega, é Jornalista e Escritor além
de Webdesigner premiado no Brasil e no Exterior. É
Correspondente do Antípodas. Hispanic Journal da Austrália
. É Fundador da ONG Gros-IPPH
e do Grosnet-SWH
Mora na Bahia, Brasil desde 1971. (mitortega@hotmail.com)
|
|